desamparo X
ela não tem tempo pra ser. fica não sendo por aí, tecendo desagrados, não esperando. ela jogou no lixo sem querer todas as cores da sua vida, quando percebeu, o caminhão tinha levado. percebeu no ônibus, quando teve tempo pra ser, dois segundos pra ser. então ela só sente ódio. quem não é, só sente ódio. ela fechou os olhos e ansiou por um bom pensamento, mas só conseguia pensar no dia em que todos morressem. não era um pensamento egoísta porque queria estar junto com todos, mas não queria sentir ódio. ela queria algo como nuvens ou compreensão. ela queria uma verdade que não existia mais e nem lembrava como era. foi andando na rua sozinha, há alguns anos não tinha quem a acompanhasse... sobrou como alento: sabia fazer tudo errado. um dom que adquiriu e assim descobriu que dom também se adquire. a vida sempre serve pra coisas bestas. tinha um cansaço daqueles que não se explica. a alma era tarde. e era a de um fantasma bêbado e triste. pra jogar na parede o cd da Nina Simone, não pensou (não pensava!), apesar do meigo vestido azul de flores da discórdia. apesar das unhas azuis da discórdia, dos olhos azuis da discórdia, dos dias azuis da discórdia. olhou pra todas as coisas. tudo desimportante, desnecessário e não belo. ela mesma também desimportante, desnecessária e não bela. não tinha graça. não riu. o bom era a chuva! mesmo que não tivesse plantação. mesmo que fosse inútil pro mundo e pra si, mesmo que desejasse a morte súbita do maldito motoqueiro que jogou esgoto em seu vestido, suas botas e seus pensamentos gastos. mesmo assim, o bom ainda era a chuva! a chuva triste que molhou com cuidado e paciência, o seu rosto vazio, os seus olhos doídos, os seus cabelos desbotados, sem amor e sem corte. 
Escrito por Cléo De Páris às 00h54
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frio na barriga...
LANÇAMENTO DA SP ESCOLA DE TEATRO - CENTRO DE FORMAÇÃO DAS ARTES DO PALCO 
Programação
Quinta, 26 de novembro 16h – Conferência sobre Cenografia J.C. Serroni, coordenador do Curso de Cenografia da SP Escola de Teatro, apresenta conferência com José Dias.
17h30 – Apresentação do ator Luis Melo e da Cia. Brasileira de Teatro, fazendo leitura de um texto inédito do Paulo Leminski
19h – Conferência sobre Humor Raul Barreto, coordenador do Curso de Humor da SP Escola de Teatro, apresenta conferência sobre humor com Jorge Loredo.
Sexta, 27 de novembro 16h – Conferência sobre Direção Teatral O coordenador do curso de direção da SP Escola de Teatro, Hugo Possolo, apresenta conferência com o ator e diretor Emílio di Biasi.
17h30 – Apresentação de Eduardo Okamoto. Ele fará uma demonstração de trabalho baseada no espetáculo Agora e Na Hora de Nossa Morte. Os métodos de criação desta peça são descritos pelo ator em torno de três pilares fundamentais: preparação corporal; observação de pessoas como base para a criação de personagem; criação dramatúrgica.
19h – Conferências sobre Técnicas de palco J.C. Serroni, coordenador do curso de Técnicas de Palco da SP Escola de Teatro, apresenta conferência com Raul Belém Machado.
Sábado, 28 de novembro 16h – Conferência sobre Sonoplastia Raul Teixeira, coordenador do Curso de Sonoplastia da SP Escola de Teatro, apresenta conferência com a sonoplasta Tunica Teixeira. 17h30 – Demonstração de trabalho do irrequieto músico e ator dinamarquês Jan Ferslev, do grupo Odin Teatret, baseado naquele país escandinavo. Misturando teatro, música e dança, Jan revela as nuances dos espetáculos produzidos por eles, mostrando as diferenças e semelhanças entre dançarinos, atores e músicos.
19h – Conferência sobre Dramaturgia A coordenadora do Curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, Marici Salomão, apresenta conferência com o dramaturgo Luis Alberto de Abreu.
Domingo, 29 de novembro 14h – Conferência sobre Atuação Rodolfo García Vázquez, coordenador do Curso de Atuação da SP Escola de Teatro, apresenta conferência com a atriz Denise Fraga.
17h30 – Apresentação de Mariana Percovich, da Cia. Complot, do Uruguai. Ela mostrará os métodos do processo criativo do espetáculo Medea Del Olimar, além de trechos da peça em si.
19h – Conferência sobre Iluminação O Coordenador do Curso de Iluminação da SP Escola de Teatro, Guilherme Bonfanti, apresenta conferência com o light designer Roberto Gil Camargo.
Sede Provisória da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco Avenida Rangel Pestana, 2.401 – Brás Tel. 2292 7988 – 2292 8143
www.spescoladeteatro.org.br
Escrito por Cléo De Páris às 00h36
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desamparo IX
seus pés inchados e seus cabelos sem cor não encontraram alento no silêncio. não encontraram paz na escuridão suas impaciências. o medo também não encontrou nada em lugar algum e ficou do jeito que esteve sempre. usava uma meia infame de ovelhinhas. sentiu subitamente muitas saudades da avó. se estivesse viva e se ela pudesse estar perto, teria uma razão bela pra sorrir. olhava a janela triste de carros tristes levando pessoas tristes com pensamentos tristes para lugares tristes e encontros tristes de dias tristes com pessoas tristes. ao longe, fantasmas bobos, sem crédito e tristes acenavam. sorrindo com boca sem dentes ameaçavam partir e ela resolveu então virar a cara para o desalento. não esperava nada e poderia permanecer na estação só por querer. nenhum encontro, nenhuma surpresa, nenhuma mudança. esperaria que anoitecesse, depois esperaria que amanhecesse. esperaria que chovesse, depois que parasse a chuva e uma brisa gelada movimentasse suas ilusões. se tivesse tempo, choraria. se tivesse tempo, choraria muito enquanto esperava. primeiro, decidiu, porque era mesmo triste. depois, porque tinha as mãos irremediavelmente presas e não desistira de voar. assim mesmo voaria e daí era bastante triste... mais ainda, se tivesse tempo, choraria porque a incompreensão da vida tinha aparecido bem agora, vermelha e leve. choraria, caso tivesse tempo, porque a incompreensão da vida era leve. e vermelha. e triste como sua doçura. já ia acabar mesmo. se tivesse tempo, desenharia uma nuvem do jeito que conseguisse, acenaria para os fantasmas bobos e sem crédito e choraria nos aplausos finais. 
Escrito por Cléo De Páris às 15h30
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nota de desaparecimento
sei que estou desaparecida. tenho planos de voltar, mas não consigo achar uma estratégia pra ter tempo. daqui a pouco vou ter 80 anos e muito tempo perdido. não sei. ou um dia as coisas mudam. não sei. nem consigo pensar com esse calor. por hoje, vou colar aqui um dos emails que recebi, dando por meu sumiço... e até fiquei feliz! ----- Original Message ----- From: Cléo De Páris To: Rogerio Marcondes
Para descobrir quais palavras estão presas na minha lingua, comento seus posts instigantes. Vc decidiu entrar em greve do Pueril? Pois agora, vire e mexe, me engasgo com as palavras que se acumulam na minha boca, sem que eu tenha a chance de conhece-las. Fica assim registrada a minha reclamação Rogerio
Escrito por Cléo De Páris às 15h29
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é hoje!!!

apareçam! vai ser uma festa linda, a maior Satyrianas de todos os tempos. e "Liz" continua em seu horário normal, sex e sáb, 21hs.
Escrito por Cléo De Páris às 11h18
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SAIU A PROGRAMAÇÃO DAS SATYRIANAS
a maior festa do teatro brasileiro: http://satyros.uol.com.br/noticia.asp?id_destaque=1 Calendário Oficial do Estado de São Paulo “Maratona Cultural Satyrianas – Uma Saudação à Primavera” (Lei nº 13.750, de 14/10/2009 – Projeto de Lei nº 741, de 2008)
Escrito por Cléo De Páris às 13h11
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O Livro dos Monstros Guardados
assisti outro dia e recomendo. porque o trabalho do Zé Henrique é muito, muito legal, o texto é lindo e tem um elenco maravilhoso. ah, e ainda tem o meu Daniel do brejo... que tá encantador! 
Direção: Zé Henrique de Paula Texto: Rafael Primot Com: Daniel Tavares, Fabio Redkowicz, Fabricio Pietro, Luciano Gatti, Otávio Martins, Patrícia Pichamone e Sandra Corveloni. Duração: 70 minutos quartas e quintas, 21 hs no Teatro Imprensa (Rua Jaceguai, 400) ingressos 10 reais (inteira) e 5 reais (meia)
Escrito por Cléo De Páris às 18h59
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desamparo VIII
ficou de costas para o tempo e para a lata de cerveja pela metade. nas coisas que não queria ver, constava também a unha irremediavelmete lascada, e a mais forte de todas! olhar já era difícil, mas o pior é que precisava sentir. os espinhos no tapete de sonhos também. não somente feios, maus. respirava memórias. ia sufocar. ou então cantaria como os pássaros. sem motivo. o melhor era ser sem motivo. chegar e sair. não importar. virar as costas. adiantar o relógio até que fosse só noite. não gostava nada de ficar suspensa. queria pisar no chão, pensar no chão, esquecer no chão. tentou dizer pra ele que sabia como acabava o amor, mas tinha tanto barulho e ele queria rir tão alto que só conseguiu fazer gestos sem sentido (que significaram mais vestido azul do que como acaba o amor).
desabou. cerrou os olhos e os punhos. o esforço de sempre pra não pensar. desistiu e pensou alto: até preferia que arrependimento matasse! acostumada a finais, pegou logo uma corda e um banquinho. sorriu para o clic. no seu sonho, o mundo era todo feito de cacos de vidro, era preciso ter muito cuidado. acordou num sobressalto, mas o alívio durou pouco... a vida era toda feita de cacos de vidro e era preciso ter muito cuidado. até preferia que arrependimento matasse. desabou. cacos. 
Escrito por Cléo De Páris às 00h12
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a música mais linda do mundo nessa semana
Feito GenteWalter Franco
Feito gente, feito fase. Eu te amei, como pude. Fui inteiro, fui metade. Eu te amei, como pude. Fui a faca e a ferida. Eu te amei como pude. Feito bicho que se espanta. Eu te amei como pude. Quando chegam a morte e a vida Feito lixo que se queima. Eu te amei como pude. Feito chama quando arde. Eu te amei como pude. Fui capacho, já fui lama. Eu te amei como pude. Fui herói, fui covarde. Eu te amei como pude. Feito a dor que cedo ou tarde. Eu te amei como pude. Dói o corpo e dói a alma. Feito água, feito vinho. Eu te amei como pude. Feito mágoa, feito espinho. Eu te amei como pude. Fui um poço, pensamento. Eu te amei como pude. Fui a calma e a revolta. Eu te amei como pude. Fui a vela, fui o vento. Eu te amei como pude. A partida foi a volta. Eu te amei como pude.
Escrito por Cléo De Páris às 16h17
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desamparo VII

precisava de muitas coisas, mas mais do que tudo de solidão. e de ócio. precisava como nunca precisou de delicadeza, que sempre teve muita. (mas a vida sorrateira rouba um pouquinho, todo dia). queria se derreter em lágrimas. ou em armas, não sabia bem. colhia flores de concreto, enfeitava uma mesa de desprimavera. olhava ao redor e só via o que não se pode tocar. era fraca pra reconciliações. sempre desmaiava. o chão a puxava bruscamente e seu desespero, como um pé de vento feito só de som, era inapto. era inapta sua certeza. trocaria tudo por um pomar! enaiava um recomeço. não conseguia falar tudo que queria, os objetivos roubavam as palavras. seus joelhos doíam e roubavam as palavras. o óbvio chegava gelado e roubava as palavras. correndo. trocaria tudo por lembranças de um pomar. só deu tempo de colocar a blusa. não passou maquiagem nem nada. seu coração: como uma porta que só tranca por dentro.
Escrito por Cléo De Páris às 17h33
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domingo é dia
de tirar o esmalte azul da Liz de fazer comida de ouvir o silêncio de andar pela casa de pijama o dia inteiro de acender velas de dormir de comer bolachas com mel de abrir as janelas de ficar bem sozinha de ter esperança de andar descalça de sentir saudade de pintar o cabelo de tomar chimarrão de ver fotos antigas de rezar de falar com o irmão que tá longe de não ficar atenta a nada de contemplar bobagens de olhar a lua na janela com calma de desorganizar tudo de agradecer de esperar 
Escrito por Cléo De Páris às 23h25
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a música mais linda do mundo nessa semana
Canção da PartidaDorival CaymmiMinha jangada vai sair pro mar Vou trabalhar, meu bem querer Se Deus quiser quando eu voltar do mar Um peixe bom eu vou trazer Meus companheiros também vão voltar E a Deus do céu vamos agradecer
Escrito por Cléo De Páris às 22h42
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Para ela.

 "A Noiva" telefilme tv cultura/os satyros - 2008
Escrito por Cléo De Páris às 11h12
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desamparo VI
ou
bem volúpia de primavera triste
a menina com os pés machucados olhava o horizonte de si... olhava de cabeça pra baixo e com alguma paixão. querendo, via pétalas gigantes e engolia o desespero. a dor da menina olha junto com seus olhos, quer jogar fora tudo que não lhe convém. mas divaga. já foi quando ainda não tinha ido. pra fugir do medo, melhor ir ou ficar? era bem volúpia de primavera triste... sim, porque o escuro desequilibra as gengivas machucadas de tanto mastigar a dor. de pijama ouvindo sirenes ao longe, uma chuva desbotada dentro de sua cabeça, ela não sabia mais onde colocar a esperança. pensava assim olhando o céu claro demais: tem dias que a vida nos parte o coração. noutros, não faz nada. era bom aqueles dias em que a vida não fazia nada. o silêncio de deixar seu coração só bater. passou outra vez em frente à loja de chapéus, o senhor velhinho e elegante sempre a olhava do mesmo jeito. ela sabia, ele gostaria tanto que usasse seus chapéus! ele tinha um olhar que pedia, mas ela tinha um olhar que não queria mais nada. um olhar que não queria girassóis, nem nuvens, nem balés. nem mesmo caleidoscópios. ela podia entrar num quadro de Renoir e não sair nunca mais. pra tristeza do velhinho elegante da loja, ficaria lá bem colocada sem chapéu com um olhar de quem não queria mais nada, com um olhar de quem não sabia mais onde colocar a esperança. 
Escrito por Cléo De Páris às 10h52
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a música mais linda do mundo na semana passada
Estrela, EstrelaVitor RamilEstrela, estrela Como ser assim Tão só, tão só E nunca sofrer Brilhar, brilhar Quase sem querer Deixar, deixar Ser o que se é No corpo nu Da constelação Estás, estás Sobre uma das mãos E vais e vens Como um lampião Ao vento frio De um lugar qualquer É bom saber Que és parte de mim Assim como és Parte das manhãs Melhor, melhor É poder gozar Da paz, da paz Que trazes aqui Eu canto, eu canto Por poder te ver No céu, no céu Como um balão Eu canto e sei Que também me vês Aqui, aqui Com essa canção
Escrito por Cléo De Páris às 15h56
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