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A falta
"Amanheceu. A falta que Joana me faz é maior que meu abandono. Uma lástima que ela não saiba o tamanho da dor que inventou pra mim: se soubesse talvez se curasse de si mesma e fizesse par a essa falta que também é maior que ela... quero dizer que a dor começa a entupir o esôfago e se espalha gordurenta pelas vias públicas, faz o sujeito (porque não sou mais eu) escrever letras de músicas antigas, atravessar ruas às cegas e tropeçar no vazio diante de um si mesmo que gira em falso sobre um eixo de coisa nenhuma e desfazimentos generalizados... ah, se Joana soubesse da mutilação e do mal, e da falta que me faz... talvez até pudesse sentir-se culpada e reconhecer que é uma biscate (linda, linda) e talvez chegasse a ter consciência da própria crueldade e da manipulação iníquas que só fazem voltar-se contra ela mesma, senhora desse maldito carrossel de desfazimentos... ah, se ela soubesse a falta que me faz, tomaria esses "dados" como um manual de sobrevivência... e, a partir daí, não teria outra alternativa senão fazer o que eu faço agora que o dia amanhece: sofrer pelo amor que subtraiu de si mesma; ainda assim, não sentiria a falta que me faz... essa que é física e ocupa indiscriminadamente desde minhas prosaicas vias respiratórias até o nome dos viadutos mais cinzentos da marginal do Tietê, a falta que aproxima, diminui e faz iguais os lugares nenhuns, essa que pega o sujeito chorando no metrô e é a causa das suas broxadas, não tem explicação e surpreende a amada na outra plataforma para perdê-la em seguida, e o faz (o tal sujeito) definhar dentro do próprio alheamento e o faz refém dos lugares comuns mais detestáveis ao amanhecer, a cada dia sem ela, ah, se Joana chegasse aqui e agora, nesse minuto - repito - não ia ser maior que o vazio que me consome: ia ser nada diante do pasmo que ocupa todos os logradouros, aortas, praças, safenas e supermercados que deixei - deixaram - de existir em função da falta que ela me faz..."
Esse é um trecho do livro "Joana a contragosto" do Marcelo Mirisola. Lindo e arrebatador. E dói, preciso avisar, dói mesmo.

Escrito por Cléo De Páris às 08h24
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Faz de conta que tem sol lá fora

Um dos trabalhos mais delicados que já vi. O texto é do Ivam Cabral, que me surpreende mais a cada dia. Não é só por amar o Ivam que saí emocionada do teatro. Tudo é lindo. lindo e triste. A direção da Aline Meyer é sensível, os atores Nilton Bicudo e Jerusa Franco se entregam a cada silêncio, a cada olhar, a cada respiração e nos levam junto, embalados pela linda música e nós vamos porque queremos entender um pouco aquelas vidas, o caminho daquelas almas tristes e nossa solidão. Tem muita vida naquela sala fechada, à meia noite de sextas e sábados. Fica até o fim de junho no Satyros 1 e eu acho que vocês não deveriam perder.
Escrito por Cléo De Páris às 17h38
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