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Zelândia e o mundo azul

A Zelândia era uma solteirona alegre, com peitos enormes, que morava (ainda mora) em Barão de Cotegipe. Era chamada de louca, motivo de piadas e nunca dizia bom dia ou tudo bem, ou como vai. cuprimentava a todos assim: "tudo azul?" Eu tinha uns 9 ou 10 anos, estudava em uma escolinha pública simpática, azul e gelalda no inverno. Minha avó era faxineira da escola, na hora do recreio, eu e minhas primas, Luciana e Lucimara, ficávamos na minúscula cozinha com ela e a dona Celestina, a outra servente, tomando uma sopinha gostosa da merenda escolar. Naquela época, naquele lugar, era uma vantagem muito grande ser neta de servente! A Zelândia era professora e trabalhava na biblioteca. Adorava quando eu entrava lá e sempre me indicava livros, eu nem lia alguns deles, mas gostava de ver como ela ficava feliz, dizendo que poucas meninas da minha idade retiravam tantos livros como eu. Ela também tinha um grupo de teatro e dança, quer dizer, em Barão de Cotegipe... Eu era uma de suas dançarinas, tínhamos roupinhas azuis e a música era sempre Danúbio Azul. Ela já tinha a coreografia na cabeça, sem nunca ter feito dança. mostrava os passos, os movimentos de braços e cabeça, o olhar. era rígida e repetia: ouçam a música! é linda! Uma vez fomos nos apresentar em São Valentim, cidadezinha próxima, só as bailarinas. já era tarde e não tínhamos condução pra ir, então a Zelândia conseguiu uma combi velha, sem bancos e marcou na frente de sua casa, olhamos a combi sem entender e ela abriu a porta de casa e gritou, venham, estamos atrasadas, cada uma pegue uma cadeira! saímos voando, na estradinha de chão batido, a cada curva, as cadeiras caíam, mas era um tempo de ser feliz e éramos meninas e meninas dessas que se divertem em plantar cenouras e brincar de ver o futuro na palma da mão e tínhamos certeza absoluta de que seríamos felizes pra sempre, então ríamos muito! e fazíamos caretas atrás da Zelândia, nas cadeiras instáveis, pra fazer cara de anjo quando ela olhava pra trás. Chegamos quando a festa ia acabar, ela gritou: "rápido! vistam os vestidos e prendam o cabelo, precisamos apresentar antes que todos saiam!" ela ligou a vitrolinha com o vinil e uns olhos cansados e absortos nos viram dançar Danúbio Azul. Depois, aplausos e elogios e todos foram pra suas casas. estávamos famintas, saímos do pavilhão e não tinha nenhum bar aberto, nenhuma pessoa na rua... mas a Zelândia tirou de sua sacola de palha um saco cheio de sanduíches de mortadela e muitas bananas! "venham comer, o dia foi puxado hoje!" ela pensava em tudo... Dias depois, seria nossa grande apresentação, seguida da peça de teatro, em Barão de Cotegipe. Nós, as "bailarinas" não podíamos assistir ao ensaio dos "atores". E tinhamos tanta curiosidade! entrávamos de fininho pra espiar e ela parava o ensaio gritando pra gente sair. Também tentávamos entrar escondidas no porão, onde estavam os figurinos e cenários, mas era um lugar proibido e ela estava sempre atenta... então, só assisti mesmo na apresentação, no pavilhão da igreja, a primeira peça da minha vida, dirigida e escrita pela Zelândia. Não lembro de quase nada, mas era uma história de amor proibido, que acabava bem e tinha também alguma coisa religiosa, um padre e uma freira. Eu adorei. Quando acabou, fiquei parada olhando os atores no camarim, eram pessoas que eu conhecia, mas fiquei fascinada ao ver que, em cena, eram outros e todos ganharam minha admiração especial nesse dia. Só saí de lá, quando a Zelândia chamou, dizendo que eu tava demorando muito no camarim e todas as meninas já estavam prontas e íamos tirar uma foto. Eu não conversei com ela nem com ninguém sobre a peça, mas uns dois dias depois, ela apareceu na minha casa e disse pra minha mãe: "agora vou encenar a vida da Santa Maria Goreti", e apontando pra mim, "quero que ela faça a santa". Arregalei os olhos. minha mãe falou: "Imagina só!" eu era tímida demais... bichinho do mato até pro mato. sorri e fui pro quarto, não falei nada nem com minha mãe nem com a Zelândia, mas passei muitas noites, antes de dormir, pensando em como seria a Santa Maria Goreti, como seria a cama dela, quando e como rezava, se tinha cabelos curtos ou longos, o que gostava de comer, se amava alguém... fiz uma gênese sem imaginar o que era isso. Mas foi nessa época que a Zelândia parou de fazer teatro, acho que quase todos na cidade já tinham aparelhos de televisão, alguns até em cores! e eu parei de pensar na Santa Maria Goreti e até tentei não ser atriz, mas acho que a Zelândia tinha razão. Outro dia, conversando com meu pai, descobri que ele, na juventude, também participou do grupo da Zelândia e meus tios também. meu pai lembra que fez um soldado numa peça e ainda sabe algumas falas! Ela é uma velhinha solitária que mora na mesma casa azul na frente da igreja. quando vou a Barão, tento visitá-la, mas ela não atende o telefone, dizem que está caduca, que só reza e não fala com ninguém, que sobe as escadas do porão se arrastando. Eu fico imaginando que ela ainda desce lá pra ver os figurinos, os restos de cenários e sonhar que o mundo é bonito. Ela sabe muitas coisas.

Escrito por Cléo De Páris às 16h10
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e foi lindo!
Voltei de Londrina feliz, bem feliz! Eu que sou chata pra fazer cinema, saí de lá leve, surpresa com tudo que vivi. Nunca fui tão bem tratada numa filmagem e nunca vi tanto respeito. Ninguém brigou, não teve climão, as coisas eram resolvidas com calma e era um prazer encontrar com as pessoas. Eu acho que em Londrina só existe gente legal! de verdade. são todos bonitos, inteligentes, gentis e talentosos. Claro que com tudo isso, vamos ter um trabalho lindo, então, agradeço!

Escrito por Cléo De Páris às 12h18
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