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Pueril
 


1953

quando duas pessoas se amam, é 1953. importam-se menos com os beijos do que com os chocolates.
dão as mãos por uma boa dança, desenhando nuvens nas coxas. quando duas pessoas se amam, é 1953 e está tudo morto
não chove ou faz sol. vive-se o que o céu permite. a intensidade dos sentidos é, ao mesmo tempo, a ausência completa deles.
não há sabor que desagrade, porque não há sabor. o gosto é o que não se sente. está pintado entre dois lábios.
quando duas pessoas se amam, trancam-se em 1953 para que nunca amanheça.
tem-se lençóis, mas são inúteis. há janelas abertas e pouco importa o vento. é tudo cenário.
a rua suja, a água entrando nos pés, o cadastro de um quarto de hotel, dois litros de água para a sede, que, de fato, não existe.
pode-se viver sem líquidos em 1953. porque, quando duas pessoas se amam, o que existe é inútil. as coisas sem texto são as importantes.
ganha altura de mágica o silêncio e, ainda assim, as letras se abrem, como estrelas na boca: você as cospe para que eu coma.
quando duas pessoas se amam, é 1953 e se pode inutilizar o mundo.
a beleza dorme tranqüila enquanto dança entre as malas do quarto. então, um diálogo é tecido como o sol arrebenta a madrugada.
estamos prestes a partir. e você vai até a porta de 1953 e me aponta de lá que, não, não podemos voltar. 1953 é irreversível, grave.
não há distância: quando se ama, como nós, em 1953, há apenas dentro.
provamos, mais uma vez, que há arquitetura: cabemos no despropósito de acreditar, um cômodo confortável forrado de espinhos.
você quer aprender a cortá-los. eu quero que se desorganizem.
pelo equilíbrio discreto, forjamos ações que, enfim, podem deixá-los imóveis. nossa reverência à dor, porque, sim, em 1953, há a dor.
e é por ela que dançamos e compramos os melhores chocolates e desligamos a televisão às duas e meia.
você e eu sabemos que dois distantes estão sempre abraçados. não há distância na diferença.
a felicidade é também o que chora. fazemos do riso um emplastro verdadeiro - tudo é verdadeiro em 1953.
é preciso arranhar as costas nos espinhos para que, outra vez, venha o motivo de, por que não?, tentar resolvê-los.
mas não. nunca se resolve. a inércia é o ato principal em 1953.
você nunca diz que me ama. e isso é o máximo do amor. quando se cala, é porque se enfiou em mim. há apenas uma porta em 1953.
e é a da entrada.

a Fada Verde escreveu isso. e pensou em mim. Ela é a Audrey e está linkada ao lado.



Escrito por Cléo De Páris às 22h23
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