começou a comprar guarda-chuvas
não ia mais ser uma menina perdida no meio do medo. não ia mais ficar perdida no meio da chuva, no meio do tempo. não ia segurar o desespero pelos cabelos. ia dançar. ela ia dançar tanto que nem conseguia se conter de imaginar. ela ia esquecer que bilhetes continham palavras. que noites frias de copos de vinho barato continham palavras. ia sentar no sofá com o vestido longo novo ainda com etiqueta e ser só poesia. sem música até. sozinha e poesia silenciosa podia se espreguiçar como um bicho. podia acender velas brancas para o santo das causas práticas. tinha inventado o santo com a fada na noite de rapsódia! mas ainda preferia o santo das causas poéticas... que nem tinha inventado mas ele era de existir mesmo sem ser inventado. e ela preferia, não ia negar agora. mas por que os braços não faziam os movimentos que queria? era tudo um pouco como ter sopro no coração. que é sem ar e nem devia ser sopro. infame o coração. sopro sem ar era como olhar as nuvens e saber que não era capaz de desenhá-las. como olhar no espelho seu sorriso de mentira. a rua não era nem nada nuvem. fazia barulho de tudo que não precisava existir. e era pra ser mais bonito sentar no sofá e ser poesia! bem mais. era pra debruçar na janela moça do tempo passado e daí tocar aquela valsinha quase triste. quase adeus. o fracasso estava lá no morro, em cima das antenas, não precisava pegar. era de não fazer esforço a vida. lembrou do pai: "pra que se preocupar com a chuva se você não tem plantação?" agora tantos guarda-chuvas... pra não ter plantação e se preocupar...? a vida era de ouvir o pai. era de ouvir, ver, passar a mão devagarinho pra não acordar. era de sorrir sem ar pra ver a vida dormindo. em câmera lenta. a vida só era de fazer carinho na vida pra ela sonhar em câmera lenta e sem fantasmas barbudos. era só de dançar. "não, não fuja não, finja que agora eu era o seu brinquedo eu era o seu pião, o seu bicho preferido..." a vida era de ouvir Chico Buarque, mesmo que ele não fosse tão gênio como Paulinho da Viola. era de dar grandes goles; a vida era de deitar no colo, de piscar e depois inventar todas as coisas que já tinham sido inventadas. e tudo de veludo! tudo de acalentar! era assim. e daí inventou só de ser a menina que perde tempo sonhando com o vento. 
Escrito por Cléo De Páris às 01h31
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a música mais linda do mundo nessa semana
Vela No BreuPaulinho da ViolaComposição: Paulinho da Viola e Sérgio Natureza Ama e lança chamas Assovia quando bebe Canta quando espanta Mal olhado, azar e febre
Sonha colorido Adivinha em preto e branco Anda bem vestido De cartola e de tamanco
Dorme com cachorro Com um gato e um cavaquinho Dizem lá no morro Que fala com passarinho Depois de pequenino Chora rindo Olha pra nada Diz que o céu é lindo Na boca da madrugada
Sabe medicina Aprendeu com sua avó Analfabetina Que domina como só Plantas e outros ramos Da flora medicinal Com 108 anos Nunca entrou num hospital
Joga capoeira Nunca brigou com ninguém Xepa lá na feira Divide com quem não tem Faz tudo o que sente Nada do que tem é seu Vive do presente Acende a vela no breu
Escrito por Cléo De Páris às 14h03
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mais um fim.
ababa hoje nossa temporada de "Liz" no Sesc Paulista. no dia 12 de junho estreamos no Satyros 1. tem tantas coisas que eu poderia dizer sobre essas semanas, mas acho que não vou dizer nada. acho que vou me despedir desse momento só com essa imagem: 
Escrito por Cléo De Páris às 13h57
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