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sobre chuteiras e adoçantes


eu que sempre carreguei um estandarte maior que o infinito em nome da minha vocação para o
teatro, estou pensando seriamente em pendurar as chuteiras... suspiro toda vez que penso
nisso, um suspiro de dor calma, como se o desvanecimento dos sonhos pedisse consentimento
todos os dias, todos os segundos. eu suspiro pra dizer: 'podem ir'. depois suspiro de novo pra dizer:
'podem ir, mas bem devagarinho, pode ser?' já faz um tempo que venho juntando motivos,
costurando-os um a um com cuidado e atenção. não consegui tirar um sequer da imensa colcha
desde que comecei. triste.
eu lembro quando tudo começou a acabar. lembro o dia e a hora. o local e o motivo. lembro que
era um dia quente e bonito, lembro que estávamos todos à flor da pele, unidos e emociondados e
lembro que fazíamos o espetáculo de que mais me orgulhei na vida. Era "Inocência" e era
em Sorocaba. e era a última vez que faríamos a peça. de algum jeito, todos nós 'perdemos' a inocência
naquele dia, tenho plena certeza. nos olhos tristes de todos, um desconsolo de abismo. eu, no camarim,
durante a peça, retocando a maquiagem da cega stripper Absoluta, pensei em todas as tristezas
e decepções que estavam por vir. pensei em toda minha doação pra fantasia e pensei que talvez
quisesse um mundo mais real. pensei só. depois inventei uma brincadeira: o sonho de trabalhar numa
fábrica de adoçantes! era pra tornar mais leve o ar triste da van que retornava a São Paulo cheia de
cacos de sonhos. era também a metáfora de uma estabilidade emocional. simples mesmo. era pra
pensar que uma rotina qualquer podia ser a salvação. eu viajei pensando nisso. um lugar branco, limpo,
iluminado e falsamente doce. pra não ser perturbada. pra descansar no sábado e no domingo sempre!
pra ficar em casa se estivesse doente. pra não sofrer mais do que o necessário. pra estar no aniversário
da minha mãe! pra estar na cirurgia da minha mãe, no enterro do meu avô... pro carnaval ser carnaval.
numa fábrica de adoçantes, nunca eu me importaria se um colega resolvesse abandonar o trabalho pra
viajar pro Egito por 3 semanas. não me importaria se um colega mentisse que tinha outro trabalho pra
faltar no ensaio. não me importaria se desaparecessem do camarim os figurinos. não me importaria se
uma colega não usasse a maquiagem igual a todos porque queria ficar bonita na peça. não me importaria
se fizessem muito barulho na coxia. não me importaria se a maioria dos amigos ignorassem meu trabalho,
nem se o meu grupo não ganhasse prêmios de incentivo. nada disso seria  desrespeito na fábrica de
adoçantes. mas no teatro... cansa e massacra. no teatro, toda nossa energia fica exposta, todo nosso
amor, o corpo, a mente, a alma, a esperança. na fábrica de adoçantes, não tanto assim.
uma vida leve. vou buscar uma vida leve.
vou cumprir a temporada de "Liz" com todo amor de que sou capaz. acho que nunca tive um personagem
tão incrível que dissesse tanto as minhas verdades. e acho que nunca mais vou ter outro a altura. vou
juntar esse motivo, costurar na colcha de meus retalhos tristes e dizer adeus aos sonhos. sem mágoas.
simples assim. como a Sra. Zucker em Inocência: "Ah, se eu trabalhasse num posto de gasolina!"
Ah, se eu trabalhasse numa fábrica de adoçantes!



p.s.: (pode ser que eu mude de idéia na quarta-feira... ou no próximo
inverno, mas não a respeito de  tudo!)



Escrito por Cléo De Páris às 18h53
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